Artigo: Uma Onda de Artes com Maré Potente

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Eduardo Alves é economista e sociólogo. Nasceu na periferia carioca e hoje faz parte da direção do observatório de favelas

Eduardo Alves

A favela da Maré, assim como o amplo, diverso e múltiplo território das periferias, é um impactante ambiente de criação, invenção e superação das condições de vida impostas pelo poder dominante. Nesse grande mar, destacam-se as intervenções artísticas com beleza e com falas que apresentam as potências existentes. A arte chega na Maré como uma onda, que faz o mar de pessoas se movimentar para ampliar a vida em todos os seus aspectos.

São comunicações públicas, com profunda humanização em todos os aspectos, impregnadas de amor e empatia, que circulam nas ruas ou pulsam nas telas dos computadores de mão (celulares) ou nos computadores de mesa. Amplia-se, assim, a aproximação de todos os corpos existentes, por meio de uma ação coletiva, que faz registrar na cidade uma significativa e atual pedagogia de potência da periferia por direitos, para garantir a vida com dignidade.

São artistas produzindo o espelho e o que queremos da vida nas várias favelas desse grande e apaixonante complexo. Música, dança, artes cênicas, artes visuais das mais variadas, saraus, teatro seguem aproximando todos os corpos existentes em um reconhecimento de sujeitos das grandes mudanças que precisamos construir no novo século.

No rastro desta perspectiva, artistas das periferias ocupam a centralidade na cidade. Isso ocorre em toda a Maré, seja no Bela Maré, no Centro de Artes, na Praça do Parque União, na Lona da Maré, na Rua Principal, na Teixeira Ribeiro, nos campos de futebol, nas diversas rodas de encontros e manifestações criativas nos vários locais desse grande complexo com mais de 140 mil habitantes. Pigmenta, em todas as ruas, além de Nova Holanda e Parque Maré - centralidades que abrigam as sedes da Redes da Maré e do Observatório de Favelas -, uma criatividade intensa, que tem a marca, a identidade e os objetivos das pessoas que fazem o território das periferias ganhar seu significado de potência. A arte circula e penetra na vida todo o tempo na comunidade. Há a arte que produz críticas sobre a realidade existente na Maré e na cidade, e alternativas para ações por mais direitos e vida digna, como ocorre com o Travessias ou com as entusiasmantes peças da Cia Marginal (companhia de teatro). Há a arte que explode na criação de culturas, com estéticas, atitudes, sinais comuns, formas de vestir, danças, sons próprios e comportamentos de várias artes que transbordam no funk, no rock, no samba e na música nordestina.

Há ainda a arte que brota daquilo que está guardado mais internamente, manifesto em expressões absolutamente livres e espontâneas, em cartazes nas ruas, escritos e desenhos diversos em telas populares. Seja como for, a produção artística que percorre toda a extensão da Maré torna-se um convite para os olhos brilharem em identificação de uma cor, um desenho, um som, que chamam a atenção de muitos. A arte ocupa papel e dimensão contundentes na vida de cada uma das pessoas. Mas, muitas vezes, passa despercebida, sem sacudir cada corpo para sua grande importância.

Esse papo sobre arte, por meio das letras, tem o grande objetivo de convidar cada pessoa para uma ação de conquistas por mais direitos na Maré. Conquistar o direito à vida, acabando com a onda de violência letal. Conquistar a dignidade na vida, com mais direitos ao transporte, à educação, a tratamentos das várias doenças e para a manutenção da saúde. Unificar essa grande multidão das favelas, parte desse imenso grupo da periferia, para conquistar uma cidade de direitos e ser reconhecido por todos e todas, na cidade, como potência - e não carência, como predomina na ideologia dominante.

A onda de artes existente na Maré, por si, já mostraria a centralidade do território e superaria os discursos de que há bandidos, coitados e carentes. Aquilo que aparece como carência para os vários olhares paralisados é produto das desigualdades existentes que colocam o lucro e os interesses privados acima da vida. Justamente o contrário do que é produzido com as artes na Maré, pois trata-se de uma grande explosão de vida, pungente, para a superação das situações atuais e para a criação de uma nova realidade, com direitos, nas favelas e em toda a cidade.

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