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Representantes da Frente Lésbica do Rio de Janeiro na Feira de Visibilidade Lésbica na Zona Norte da cidade

29 de agosto é dia de reflexão sobre o tema

Hélio Euclides

“O armário é o mais seguro, mas é sofrido, pois rouba sua dignidade, alegria de viver e saúde mental”, expressa Dayana Gusmão, assistente social e membro do Coletivo Resistência Lesbi de Favelas. Um sentimento de que assumir a sexualidade é difícil numa sociedade preconceituosa. Para melhorar essa situação de medo, era necessário lutar. Com o desejo de organização e união, o movimento de lésbicas começa a caminhar no Brasil nos anos 1980, com grupos e coletivos independentes, tendo participação em fóruns, articulações e partidos políticos. O ano de 1996 tem importância histórica, pois foi realizado na cidade do Rio de Janeiro o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), momento significativo para a visibilidade e aprofundamento de demandas da categoria no cenário político. A partir do encontro, foi escolhido o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica em 29 de agosto. Já o Dia da Visibilidade de Bissexuais em 23 de setembro.

Dayana entende que o momento é de conquistar espaços. “O movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) é bem divulgado, e o 8 de março (Dia Internacional da Mulher) também. Ao contrário do 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, e o 29 de agosto, o do Orgulho Lésbica, essas duas últimas ainda pouco lembradas. Sabemos que não há divulgação, pois incomodamos, e queremos direitos. As datas representam um dia de reflexão e de luta. Hoje estamos mais fortes, pois há um trabalho de base, mas temos muito a alcançar. Para superar as retiradas de direitos, temos de estar mais organizadas ainda”, afirma.

Ela acredita que a vida na favela é diferente. “Aqui há um nível de pouca informação, que reproduz violência e preconceito. Não temos coragem de expressar na rua a nossa afetividade, nem andar de mãos dadas. Para gente é tenso esses simples gestos, tudo mais difícil. Por outro lado, não vou sair da favela, aqui está a minha história. A Maré é resistência, acabamos de realizar uma marcha contra a violência, um ato simbólico e marcante”, comenta.

“Avançamos na discussão, mas não na implementação. No mercado de trabalho sempre esbarramos em obstáculos. Um exemplo, são as dificuldades das lésbicas masculinizadas, e se ela for negra, ainda terá obstáculo a superar em dobro. O preconceito não diminuiu, ainda há opressão. O Brasil é o País que mais mata LGBT. Contra isso, precisamos lutar com força, sendo incisivas contra o pensamento conservador. Temos de ocupar os espaços de movimentos de mulheres em geral”, conclui Dayana.

Estando desde o início no movimento, Virginia Figueiredo é fundadora da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e, em 1996, foi a 1ª lésbica no Brasil a ser candidata a vereadora. “O Brasil precisa ser, de fato, um País Laico, e termos mais representantes feministas, negras e LBT (Lésbicas, Bissexuais e Transexuais) nas esferas de políticas públicas. Sempre é importante ocupar as ruas pela luta de direitos e pela falta deles, principalmente na atual conjuntura nacional e internacional, em que o racismo, machismo, capitalismo e a cultura de ódio avançam. Ser sapatão num mundo tão machista é a própria revolução”, afirma Virginia.

Thamiris de Oliveira é participante de movimentos sociais e de atividades coletivas lésbicas e feministas. Uma de suas preocupações é com a saúde pública, um mecanismo de tratamento que não contempla as lésbicas. “Pensando no atendimento ginecológico, que por vezes não é capacitado às nossas especificidades, podem repercutir no preconceito, recusa de procedimentos médicos e num desconforto no trato da nossa saúde”, lembra. “Ainda temos medo de andar na rua, de demonstrar nossos afetos, de não sermos aceitas na família e por ‘amigos’, de termos de responder às expectativas de feminilidade nos postos de trabalho, de sofrer violência psicológica, física, verbal, de não ter forças de continuar os estudos; enfim, uma série de violações que diariamente respondemos com nossa resistência”, informa.

Para Thamiris, a igualdade de gênero e o respeito às sexualidades devem estar coladas:  “Nosso amor é revolucionário. Uma frase de Nina Simone, mulher negra norte-americana, resume a nossa luta: Liberdade para mim é isto: não ter medo”.

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