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Professores e alunos do Colégio Estadual João Borges de Moraes: partilha de conhecimento | Douglas Lopes

Maré de Notícias #93 – 02/10/2018

Mesmo enfrentando inúmeros problemas, mestres lutam pela educação pública na favela

Hélio Euclides

“…Testemunho que não deve faltar em nossas relações com os alunos é o da permanente disposição em favor da justiça, da liberdade, do direito de ser”. A frase, do educador Paulo Freire, revela o que é ser professor, e diz muito mais, ao docente que mora ou já morou no mesmo local onde leciona. Aqui, na Maré, encontramos vários mestres nessa situação, onde educar é valorizar a qualidade de vida de seus vizinhos.

Alguns professores não são moradores da Maré, mas se tornam residentes “honorários” com o passar do tempo. É o caso de Anna Maria Antunes, diretora da Escola Municipal Armando de Salles Oliveira. Tudo começou com o sonho do pai para que ela exercesse o magistério. “Fiz o concurso, passei e escolhi a Praia de Ramos, porque era próximo de casa. Falei que ia ficar só seis meses e já se passaram 30 anos. Comecei como professora e, com o passar do tempo, veio a direção da Escola. Aqui há uma relação boa de moradores com a escola e posso dizer que fiz muitas amizades”, afirma.

Quem olha para Marcelo Belfort dando suas pedaladas pelas ruas da Nova Holanda não imagina que ele está indo para o Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, onde é diretor. Ele atua, há anos, na sala de aula e relembra o que o motivou a ser um professor: “quando fiz História, foi para entender a minha família, a favela, a desigualdade social e a injustiça. Uma vontade pessoal de interferir, mas nunca me imaginei professor. O meu objetivo fundamental de ser professor é a busca do diálogo”. Ele acredita que um bom professor inspira outros. “Meu termômetro é minha filha que adorava assistir as minhas aulas. E agora segue o caminho: fez graduação em Filosofia e já é mestranda”, orgulha-se.

Para Viviane Couto, diretora-adjunta da mesma escola que Belfort, um bom mestre pode interferir na vida de um aluno. Ela mesma teve uma experiência tão positiva com uma professora, que a homenageou, colocando o nome dela em sua filha. “Minha professora tinha um canal de comunicação muito bom conosco. Ela conseguia entender algumas questões que não entendíamos, e isso nos fazia sentir amparados. Hoje, me inspiro nela e, por isso, fiz essa homenagem”. Para Viviane, é gratificante fazer pequenas revoluções na favela onde mora. “Ver o aluno mudando a perspectiva pela educação é o que nos faz continuar a trabalhar”, ressalta.

 

Atuar aqui não é só dar aulas e nem olhar só para o umbigo; é mais do que só desejar receber o salário no final do mês ou querer que dê tiro para não ir trabalhar. Trabalhar onde mora é entender o ambiente, é desejar uma aproximação, é estar no dia a dia do aluno”. (João Lanzellotti, diretor do CIEP Professor Cesar Pernetta e professor do PEJA na Escola Municipal Clotilde Guimarães e da UNISUAM).

 

A arte de ser professor e morador

Priscila Alves, professora de Filosofia no Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, conta que, na faculdade, entendeu o poder revolucionário da educação. “Decidi que a minha revolução seria na Maré, algo que não é fácil. A partilha do conhecimento, num território onde isso é negado”. Ela se lembra que alguns professores tiveram importância na sua trajetória. “Não me esqueço de Isabel Cristina, da Escola Clotilde Guimarães, que falava: “não é para quem pode, é para quem quer! E isso desabrochou o meu desejo de lecionar”.

“Quando entro em sala, penso em devolver o que aprendi, e que preciso lecionar na favela, no lugar do qual eu venho. Na minha prática, tento trazer para a sala de aula o cotidiano do aluno, como a operação policial, que traz angústia, algo que sinto na pele, pois tenho acesso ao mesmo lugar”, desabafa Priscila. Ela resume que a sua motivação vem diariamente do diálogo com os estudantes. “Isso se reverte numa boa aula. Algo que tem de ser planejado, um ritual de cada aula, esse é o diferencial, a fuga da rotina”, relata.

Quando essa sensação de educar o seu território contagia uma família, de oito irmãos, cinco acabam envolvidos com a educação e, desses, dois na Maré. Stela Lanzellotti é professora na Escola Municipal Escritor Ledo Ivo; seu irmão, João Lanzellotti, é diretor no Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) Professor Cesar Pernetta, e leciona no Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA) na Escola Municipal Clotilde Guimarães, além de trabalhar com disciplina pedagógica na UNISUAM. O diretor lembra, com carinho, que já deu aula para três gerações de alunos na Maré.

João tem uma história interessante. Na década de 1970, estudou na Escola Clotilde e hoje retorna como professor. “Nunca pensei em voltar à mesma escola, só que agora dando aulas. Retornar como professor numa sala de aula da Maré é uma experiência prazerosa. Entendo que é bom esse convívio com os alunos e responsáveis. Acaba a formalidade da reunião e se cria um vínculo. Atuar, aqui, não é só dar aulas, e nem olhar só para o umbigo, é mais do que só desejar receber o salário no final do mês ou querer que dê tiro para não ir trabalhar. Trabalhar onde mora é entender o ambiente, é desejar uma aproximação, é estar no dia a dia do aluno. Além de ser um luxo, não precisamos pegar ônibus”, brinca.

Ele acha que o Dia dos Professores precisa ser lembrado como um momento de luta. “É triste, na nossa carreira, ver um governador pedir para policiais levantarem os cassetetes para bater nos professores. O desrespeito continua quando há operações policiais, que impedem o nosso trabalho. Outro fato que não valoriza o profissional é o salário, o resultado é a sobrecarga, já que precisamos lecionar em vários locais. O professor não tem tempo nem de cuidar da saúde! Só se aproxima do magistério quem tem prazer. A maior parte do meu dia passo na escola, é minha segunda casa”, avalia o professor João.

Desvalorização profissional: eis um grande problema

Francisco Valdean é fotógrafo e professor nos Colégios Estaduais Bahia e Professor João Borges de Moraes. “Estudei aqui no Bahia e trabalhar onde estudei é a possibilidade do retorno do conhecimento, de um território que eu estudo no meu mestrado, que é a Maré”, afirma Francisco.

“Aqui na Escola Bahia trabalho a Sociologia da cultura local e um dos temas é a bibliografia de moradores; são inúmeros anônimos e outros conhecidos, como o cantor Naldo e a vereadora Marielle. Já na Professor João Borges de Moraes o tema é a história da Maré, uma exploração local. Na Maré, dou aulas para filhos de amigos meus. Isso é um prazer”, conta o professor Francisco. Para ele, a tristeza da educação é ver uma sociedade que reconhece o papel do profissional, mas por outro lado, falta investimentos no ensino público.

Cleber de Lira, professor do Colégio Estadual Tenente General Napion destaca que é satisfatório dar aulas onde mora e que sempre entra em sala de coração aberto. “Dessa forma, percebo um jovem da comunidade que busca enxergar as expectativas. Essa percepção faz com que a aula deixe de ser só um mero conteúdo”, revela. Como todos os professores, a valorização é a palavra-chave. “É necessário valorizar o servidor público, com salário digno e estrutura de trabalho. Passamos por uma batalha diária e precisamos ter disposição, apesar da ausência de condições. Mesmo na limitação, tentamos passar o máximo que podemos fazer. Mostramos que a educação é a alternativa concreta para a melhoria da condição social”.

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