Da Maré para Paraty

Cada vez mais visíveis
3 de setembro de 2018
Festa Cultural na Maré
3 de setembro de 2018

Maré de Notícias #92 – 03/09/2018

Escritor lança primeiro livro e participa do mais renomado evento literário do País

Hélio Euclides

Matheus de Araújo, de 20 anos, além de ser estudante de letras da UFRJ, é escritor e poeta. Morador do Rubens Vaz, ele sempre faz questão de dizer que, desde que nasceu, mora na mesma “bat-rua e no mesmo bat-lugar”. Ele lançou o livro “Maré Cheia”, em fevereiro e, em julho, foi convidado para participar da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Ele conta que o gosto pela escrita veio na juventude. “Na minha adolescência não gostava nem um pouco de ler. A matéria de que eu mais gostava era Geografia e, no Ensino Médio, a área profissionalizante que escolhi foi mecânica”, relembra. Segundo Matheus, o distanciamento da leitura se deve ao fato de, na adolescência, só conhecer a Literatura Clássica. “Era algo complexo, que não me instigava. Acredito que os professores devem frequentar saraus, para que tenham uma reformulação curricular. Isso aproximaria o aluno da poesia e da leitura”, acredita.

A mudança na sua vida veio quando escrevia para uma menina de quem gostava, no início do Ensino Médio. Era um jovem fechado, mas que, no papel, se soltava e conseguia expor seus sentimentos. Sem saber, já dava os primeiros passos para se tornar um poeta. Para se lapidar, conheceu os saraus e os Slams, que são batalhas de poesia. “Em 2016, conheci a poetisa Jenyffer Nascimento, na Vila Autódromo e, no mesmo ano, na Cidade de Deus, a Mel Duarte. E assim me encantei por esse mundo. Outra que me incentivou foi a MC Martina, e senti o desejo de viver da poesia. A poesia delas tem uma linguagem simples, que me aproximou da literatura”, confessa. A partir daí, passou a frequentar batalhas de poesia e se identificou cada vez mais com o meio.

Depois disso, nasce o livro “Maré Cheia”, que foi construído na favela e sobre o cotidiano dela. “Para escrever um livro, é preciso ter uma ideia boa, e muita paciência para superar os empecilhos. A Editora Multifoco confiou no meu trabalho. Em sete meses, após o lançamento no Centro de Artes da Maré, já vendi 200 livros, um bom número para uma época de crise no País”, comemora. Para Matheus, o livro deseja mostrar que a favela não é sinônimo de vida de sofrimento. “Aqui sorrimos e nos divertimos. Meu desejo é que, ao digitar “Maré” na busca da internet, apareça um livro ou uma poesia, e nunca mais a violência”, resume.

O livro traz histórias inspiradas no cotidiano do autor, incluindo a diferença de tratamento que ele recebe dentro e fora da favela. Ele aborda também, em suas poesias, a diversidade, a simplicidade e a esperança das pessoas da Maré. Isso chamou a atenção dos organizadores da FLIP. “Nunca passou pela minha cabeça lançar um livro, muito menos que um dia poderia estar participando da FLIP, em Paraty. Foi importante para mim, minha família e a Maré, até para os ancestrais. Em Paraty, estive ao lado de Elisa Lucinda e de mais 200 pessoas na plateia, foi um orgulho ter participado. Foi o momento mais importante da minha vida, me renovou como escritor. A ficha, até agora, não caiu”, revela. Em Paraty, o escritor ainda declamou em dois Slams, e encontrou uma pessoa da Maré – o que fez não se sentir sozinho.

Ao voltar da FLIP, nasceu o anseio de levar para todos os cantos o nome da Maré por meio da poesia. “Antes precisamos ter o desejo de que a nossa favela conheça a poesia. Para isso, estamos construindo o primeiro Slam da Maré, que deve acontecer até dezembro”. Para ele, é preciso lutar pela democracia da leitura, para que todos tenham direito ao conhecimento eàa escrita. “Precisamos descobrir a literatura, saber que ela não está morta, que ela vive. Um exemplo é o funk, que é uma poesia”, enfatiza.

Matheus entende que todos podem fazer um livro, que às vezes falta é oportunidade, mas que não se pode desistir. Para os fãs, ele garante que já está pensando em novos trabalhos.

Quem desejar conhecer mais o trabalho de Matheus de Araújo é só seguir o seu Facebook (math.araujo.poesia1) e Instagam (math.araujo.poesia) ou entrar em contato pelo e-mail: nath.araujo.poesia@gmail.com.

Loading...
X