Um pedaço de Macedo Sobrinho na Maré

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Transferida da Macedo Soares, Argentina Tibúrcio, de 89 anos, resistiu à ideia de morar na Maré, mas hoje não sai daqui de jeito nenhum | Foto: Elisângela Leite

Maré de Notícias #90 – 03 de julho de 2018

Favela foi extinta e parte dos moradores veio para Nova Holanda

Hélio Euclides

Um dia você acorda e recebe a notícia de que a favela em que você mora será extinta e todos os moradores serão transferidos para o outro lado da cidade. Isso foi o que ocorreu com moradores da favela Macedo Sobrinho, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. A política de remoções teve início na gestão do governador Carlos Lacerda (1960-1965), no então Estado da Guanabara, e seguiu por muito tempo. Os moradores da Macedo Sobrinho foram distribuídos pelo município como forma de desarticular uma possível resistência. Alguns vieram para a Nova Holanda.

Mudança forçada

Na Zona Sul, havia pressões da especulação imobiliária. Lacerda, com recurso dos Estados Unidos, implementou conjuntos habitacionais longe do centro e sem contemplar as necessidades dos moradores. Foram 32 favelas erradicadas parcial ou totalmente, duas delas foram a Praia de Ramos e a Maria Angu, numa área que hoje compreende a Maré. A favela Macedo Sobrinho ocupava a encosta do Morro da Saudade, que no final dos anos 1980 foi transformada no Parque Municipal do Morro da Saudade.

Os moradores foram tirados à força e levados para locais muitas vezes indesejados, sem saneamento básico e transporte, entre outros problemas. Elza Cristina da Silveira lembra que a família não tinha renda, então foi encaminhada para a Nova Holanda. “Foi difícil acostumar com o novo local de moradia, longe da Zona Sul. Lá no morro tínhamos uma tendinha e um ponto de luz, que distribuía energia a outros moradores. Aqui, a luz era precária. Viemos com a ideia de que seria provisório, e ficou para sempre”, conta.

A luta

“Mamãe foi guerreira e lutadora para criar os seis filhos, com tanta dificuldade. O bom era a união da família, um ajudava o outro. Aqui faltava água, mas conforme a comunidade foi crescendo ficou melhor”, l avalia Elza Cristina. Sua irmã, Regina Maria Silveira, ainda tem tudo na cabeça: “nos colocaram num ônibus conhecido como cata-mendigo, como animais. A mudança veio num caminhão. Depois nos destinaram uma casa toda ruim, de madeira podre. Minha mãe chorou com a mudança de casa, sofreu e insistiu. Conseguimos trocar por outra, um pouco melhor, na mesma Rua G”, detalha.

“No morro, tínhamos duas caixas d’água, e oferecíamos água para os vizinhos. Aqui, carreguei muita água de uma vila, que existiu onde funcionou o McDonald’s. No morro, lembro do Carnaval, onde a família tinha a barraquinha de lanches e assim ganhávamos um dinheirinho”. Regina tinha 15 anos quando sentiu na pele a remoção. “Para a Nova Holanda vieram os mais pobres. Remoção é tirar o chão do favelado, é separar os amigos, lembro de muito choro”.

Adaptação difícil

Morando no mesmo lugar até hoje, na Rua H, Jorgina Maria, a Bina, lembra o dia da remoção, 16/01/1971. “Um período de tristeza, não queria sair de lá, aliás ninguém queria. Lá era como uma família só, nos defendíamos. Aqui ninguém se conhecia. O ônibus que trouxe a gente era da DLU (Departamento de Limpeza Urbana), tipo da Comlurb, vínhamos como bichos. Fomos divididos entre Cidade de Deus, Avenida Suburbana, Nova Holanda, Vila Kennedy e Engenho da Rainha. Primeiro fizeram o levantamento, o salário era o que definia para onde cada um iria”, relembra.

“Aqui era muita lama e parecia que os mosquitos iam nos carregar. Tinha 16 anos e ajudei a cuidar dos quatro irmãos. Carregava lata na cabeça lá do Parque União, me equilibrando. Com o tempo, as coisas foram se acertando, reformamos e construímos em cima”, conta Jorgina. Sua mãe, Argentina Tibúrcio, de 89 anos, era acostumada a trabalhar perto de onde morava e, como outros, sofreram com a distância: “eu adorava o meu barraquinho. Lá, o meu trabalho era perto e tinha os amigos para cuidar das crianças. No morro, o ruim era a escada, mas tinha mais espaço para as crianças brincarem”, conclui ela, que até hoje guarda os carnês que pagava da casa na Nova Holanda.

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