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Cinco rockeiros se reuniram para lembrar o Maré de Rock, um evento que foi realizado até 2017 e que juntava música e política | Foto: Douglas Lopes

Maré de Notícias #90 – 03 de julho de 2018

Cinco rockeiros se reúnem para lembrar o passado e falar sobre o futuro

Maria Morganti

13 de julho é o Dia Mundial do Rock, mas para cinco moradores da Maré um é muito pouco e “todo dia é dia de rock”. Mesmo assim, a data foi usada como mais um motivo para comemorar, falar sobre música e reunir a turma: Diogo Nascimento, 34 anos; Elza Carvalho, 39 anos; Rodrigo Câmara, o Mariola, 38 anos; Henrique Gomes, 35 anos e Adriano Ferreira, o AF, para conversar sobre  esse estilo musical, que desde o fim dos anos 1980 tem forte expressão nas 16 favelas do Conjunto da Maré.

                “Para entender um pouco esse contexto, o que foi, o que era na nossa época, e o que é hoje, o que está acontecendo”, explica Henrique. De  início, os roqueiros da Maré se reuniam sem muito compromisso, para tocar violão, assistir os clipes do canal MTV; ouvir rádio. Cada um teve sua forma de ser fisgado pelo rock. Além dos fones de ouvido e das roupas pretas, para eles a música tinha uma importância política, expressada pelos grupos como o “Rock em movimento”, integrado por Elza e Diogo, além de contar com a colaboração de Mariola.

 Rock e política

                Em 2008, 2011 e 2017, eles promoveram o evento Maré de Rock, realizado de forma independente, em edições “pela vida contra o extermínio, direito à cidade e em defesa de todos os direitos, contra toda forma de preconceito, apoiados por instituições locais, como a Redes da Maré, além da união e da força individual de todos eles.

Elza explica que a intenção desses eventos era fazer uma integração entre músicos da Maré, público da Maré, público de fora, músicos de fora, e refletir sobre determinados temas, que não só estão vinculados à Maré, mas à sociedade de maneira geral. Apesar do empenho do grupo, eles concordam que a preocupação de problematizar questões da sociedade por meiodo rock, acabou não se desenvolvendo.

“Eu acho que o rock, que foi instrumento de contestação, hoje em dia ele está como todas as músicas, se transformando num produto, cada vez mais pasteurizado pra conseguir vender mais, meio que tudo igual, e você não pode mais falar determinadas coisas, porque você não vai vender. Eu acho que, hoje, eu penso que o rock, inclusive é uma pena, é muito conservador, sabe?”, avalia Diogo.

Fazendo coro a ele, Elza afirma que o gênero musical está “perdendo o perfil contestador e ficando mais enquadrado, tanto o rock geral quanto nacional”. Mariola discorda,  dizendo que “o rock de periferia mantém um pouco a contestação”.

A força da periferia

 “Aqui na periferia sempre vai haver uma construção, alguma válvula de escape, e a arte vem com isso”, enfatiza AF, “cria” da Nova Holanda. Para ele, essa força “nega que o espaço periférico seja, nesse momento histórico e no passado, espaço de violência”. E completa: “é onde mais se produz arte de uma maneira geral”.

Henrique, que hoje vive “a crise dos caminhos do rock”, conta que fez o primeiro contato com a música ainda adolescente, e esse processo “foi muito importante, e depois de muito tempo eu fui entender que o que eu estava fazendo era político também, era um movimento de resistência”. Mas critica “o perfil do cara que ouve rock parou junto com o rock. Só que chega um momento em que a sociedade vai mudando”.

Machismo no rock

“Eu não tenho tido nem paciência pra ir em shows de rock, se você quer saber. Muito por conta do público. Muita letra machista pra caramba”, desabafa Elza, a única mulher do quinteto. “O rock dentro na Maré é uma herança de gerações, que foi chegando pra gente, e que vai passar pra outras figuras. Se vai ser um rock and roll mais contextualizado, vai voltar a ser um rock que contesta mais do que se preocupa em vender, eu não sei”, provoca AF, pensando sobre o futuro do gênero. Já  Mariola reverencia o passado: “hoje a gente tá aí, porque teve uma galera que veio muito antes, trabalhando”.

Coração de roqueiro

De qualquer maneira, no Grupo, que tem representantes das mais diversas vertentes do rock, todos ainda têm coração de roqueiro e a presença do som na construção das suas identidades, e isso é o suficiente para não precisar de dia nenhum para comemorar, como observa AF. “Eu não vou comemorar, mas eu cultuo o rock and roll todos os dias, não tenho de me preocupar com o dia”. “O importante é estar junto”, finaliza Mariola.

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