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Fotos: Elisângela Leite

Maré de Notícias #90 – 03 de julho de 2018

Transbrasil tem nova paralisação e sua conclusão fica cada vez mais distante

Hélio Euclides

Prometida para esse ano, a conclusão das obras do Sistema Rápido de Ônibus (BRT) Transbrasil teve nova paralisação. No Maré de Notícias, Edição nº 80, de agosto de 2017, abordamos a retomada das obras que, no entanto, não duraram nem um ano. A construção da Transbrasil começou em janeiro de 2015 e a primeira interrupção das obras ocorreu em agosto de 2016, para a realização das Olimpíadas. Segundo os planos, o corredor expresso terá 32 quilômetros e vai ligar o Centro da cidade a Deodoro. A previsão da Prefeitura é de que sejam atendidos 900 mil passageiros por dia.

Desde a retomada das obras até hoje, o que se percebe na Avenida Brasil são engarrafamentos, desvios e rotas improvisadas. “Até agora, só vejo engarrafamento; antes gastava 40 minutos para chegar ao trabalho, agora são duas horas. Quando tiver pronta, como vai ser? Nem sei como vou fazer para vir da Pavuna para a Penha, se vai precisar de baldeação”, argumenta Roberto Cândido. A Avenida Brasil também virou alvo de reclamações: “não vejo vantagem nessa obra. O que percebo é muita poeira e transtorno. Onde nunca ocorria alagamento, agora apareceu, tenho medo de qualquer chuva. Até pouco tempo sofríamos também com a escuridão e muitos assaltos, depois de muitas reclamações voltou a luz nos postes”, relata Genilda de Souza, moradora de Ramos.

A obra do BRT Transbrasil expõe falhas de projeto. Um exemplo é o viaduto que liga a Transcarioca à Avenida Brasil, que foi aberto e pouco utilizado e depois fechado novamente. “Está um lixo, um atraso de vida. Dizem que vai melhorar, estou pagando pra ver. A Avenida Brasil está uma porcaria”, avalia Selma Rodrigues. Na área da Maré apenas a estação em frente à Vila do João foi iniciada e hoje já está com alguns pontos de ferrugem. “A prefeitura não tem dinheiro, então vai enrolando o tempo todo. O que foi construído vai sendo destruído com o tempo, estragando”, comenta Verônica Oliveira, moradora da Nova Holanda.

 

Passarelas de andaimes geram reclamações

Nas estações construídas ao longo da Avenida Brasil, as passarelas fixas foram substituídas por andaimes com piso de borracha. “Parece que não existe vontade política, por isso essa obra está parada. Essas passarelas não são seguras para a população. A minha previsão não é otimista, comparando com os outros BRTs”, afirma Eliene Cunha, professora.

Muitos consideram que a pior parte dessa obra são as passarelas improvisadas. “Temos de passar por essa passarela improvisada, que balança muito e os pedestres têm de disputar a passagem com as motos”, revela Eugênio Oliveira, vendedor ambulante da Passarela 12.

Os moradores têm muitas dúvidas sobre a obra, pois “esse assoalho não é bom, o cadeirante sofre. Imagino que pode ficar pior, se ao final da obra ficar só a Passarela 6, em frente à Vila do João, vai ser complicado para nós do Conjunto Esperança”, afirma Edileusa Francisco, vendedora ambulante. O Presidente da Associação de Moradores de Rubens Vaz, Vilmar Gomes, o Magá, ainda não sabe ao certo onde será o acesso dos moradores à estação do BRT. “Outra preocupação são as passarelas provisórias, a que fica no lugar da antiga Caracol está com o assoalho podre, e a demanda de pessoas que utilizam é grande. Já a Passarela 9 treme e a grade está solta, prende na roupa das pessoas e pode causar um acidente. Já liguei para a Prefeitura, pelo número 1746, e nada”.

Estação Marcílio Dias não entra no projeto

No Maré de Notícias, Edição nº 82, de novembro de 2017, abordou-se a questão de Marcílio Dias não ser atendida por uma estação do BRT. A previsão é de que a estação mais próxima seja a Passarela 15, denominada Marinha do Brasil. “Quando fomos à Região Administrativa da Penha, nos informaram que o projeto ainda não está fechado. Uma estação seria a oportunidade de melhoria da área do ponto de ônibus. O que temos hoje é ausência de iluminação. A Marinha é contra a iluminação do acesso à comunidade”, declara Jupira dos Santos, Presidente da Associação de Moradores de Marcílio Dias.

Para seguir até à Passarela 15, moradores teriam de gastar 10 minutos a mais, além da falta de segurança da via. “Está muito difícil para a população. Não acredito nessa obra, e nem que vai melhorar. Os exemplos são as outras linhas do BRT que estão em funcionamento com diversos problemas. O pior é que se não tiver a estação na Passarela 16, vai prejudicar muito”, segundo Leonardo Leite, morador de Marcílio Dias. Para Maria José, também moradora de Marcílio Dias, a Transbrasil não convenceu: “não vejo mudança, espero que melhore, pois está horrível. Ainda mais se não tiver estação em Marcílio Dias”.

 

A voz do especialista

Orlando Alves dos Santos, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da UFRJ, e pesquisador da Rede Observatório das Metrópoles acha que o projeto não é o ideal. “O sistema dos BRTs não tem capacidade de acomodar a demanda de passageiros, não é o melhor modal. A população que usa, sofre e fica espremida. Tem de se pensar na saturação”. Para ele, os BRTs obedecem a interesses econômicos: “o que ocorre é uma mercantilização da cidade, e não a melhoria de uma área com deficiência de transporte público. Não há um planejamento de um projeto de justiça social, ele ainda vem acompanhado de remoções”, enfatiza.

Orlando acredita que o projeto não é um meio permanente e nem prioritário. “O trajeto ligando Deodoro ao Caju não beneficia o sistema, pois não liga o Centro e a Zona Sul. Uma racionalização da qualidade de vida da população são barreiras para um transporte ideal”, comenta. Ele entende que há algo por trás nesse sistema de transporte: “o BRT Transbrasil é de interesse das grandes empreiteiras, operadoras de ônibus e das imobiliárias, resumo: uma máfia. A população fica subordinada a interesses diversos de classes dominantes”.

Prefeitura promete a retomada das obras

A Secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação informou que as obras do BRT Transbrasil serão retomadas em julho. Explicou que o Ministério das Cidades ameaçou cortar os investimentos, alegando que o BRT Deodoro-Caju não seria útil para a população. Uma nova proposta foi apresentada pela Prefeitura para estender o traçado até o Terminal Américo Fontenelle, no Centro. O projeto, sem custo financeiro adicional, foi aprovado pelo Ministério das Cidades, mas ficou em avaliação da Caixa Econômica Federal, que contingenciou os recursos. Sem o fôlego financeiro para manter a megaestrutura, o Consórcio Transbrasil suspendeu as atividades.

A Secretaria garante que o BRT Transbrasil está 85% concluído e, com a liberação dos recursos, vai operar em ritmo acelerado para concluir a obra com a maior brevidade possível. Informou também que, após a retomada, a obra será concluída em 12 meses, pois agora só falta a liberação do restante dos recursos por parte do Governo Federal para a continuidade dos serviços. As obras foram licitadas por 1,4 bilhão de reais, sendo 1,3 bilhão de reais recursos do Ministério das Cidades, a cargo da Caixa Econômica Federal. O restante foi oferecido como contrapartida do Município. Até o momento foram desembolsados 909 milhões de reais.

 

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