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Jorge Bob's reclama das calçadas, que não são adaptadas para deficientes | Foto: Douglas Lopes

Maré de Notícias #90 – 03 de julho de 2018

Deficientes encontram barreiras nos caminhos da favela

Hélio Euclides

O termo “acessibilidade”, segundo o Ministério da Saúde, significa incluir a pessoa com deficiência em todos os setores da vida, ou seja, no uso de produtos, serviços e informações. A Lei nº 13.146/2015, que instituiu a Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), reúne 127 artigos, mas segundo os especialistas, o País ainda não derrubou o muro que dificulta a acessibilidade. Na Maré não é diferente. Ir à padaria, pela manhã, pode virar uma aventura perigosa para quem, de alguma forma, tem os movimentos restritos.

 Mobilidade é direito

“A Maré não é exceção da cidade, aqui existem calçadas altas, que dificultam a passagem. Eu e o Bira (Carvalho) fomos à Rua Teixeira Ribeiro e falamos com alguns comerciantes sobre a criação de rampas; “conto nos dedos” os que fizeram a reforma da calçada”, reclama Jorge Geraldo, conhecido como Jorge Bob’s, que na infância teve poliomielite e utiliza um carrinho de rolimã para se movimentar.

 Acessibilidade é caro? 

Para Bira Carvalho, cadeirante, a acessibilidade vai além do comércio. “Tem instituições na Maré que não têm rampa e banheiro adaptado. Isso tira o direito do deficiente de crescer. Ir ao banheiro é uma coisa simples, mas para nós se torna um obstáculo. Falta sensibilizar a sociedade sobre essa causa. A justificativa é de que a adaptação é cara, mas um sonho não tem preço. Me sinto preso em uma cadeira de rodas, uma das violências é a falta de direitos. Em todo espaço público é obrigatório se pensar na acessibilidade, não estou inventando nada, isso é lei”, afirma;

Vanda Sousa, redutora de danos do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Álcool e Drogas III Miriam Makeba, acredita que falta muito para uma acessibilidade plena. “Não existe o cuidado terapêutico que faça um bom trabalho de colocar o deficiente de volta à vida. Existem poucas crianças com deficiência nas escolas. E onde estão? Em casa. Acho que para a acessibilidade existir, é necessário o envolvimento de todos, desde os governantes aos que cercam o deficiente, ou seja, somos responsáveis para dar livre acesso para quem não tem”.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), existem no mundo cerca de um milhão de pessoas com algum tipo de deficiência. O Censo Maré, de 2013, detalha que a favela têm 1.670 domicílios com presença de moradores tendo algum tipo de deficiência física, motora ou intelectual, ou ainda transtorno psíquico.

 Um mundo sem visão da acessibilidade

Vanessa Cavalcanti é mãe de Yasmin Cavalcanti, de 15 anos, que nasceu prematura. O oxigênio da incubadora afetou a visão da criança. Para sua educação, a menina permanece no Instituto Benjamim Constant, de segunda a sexta-feira. “No entorno do Instituto é tudo adaptado. Aqui, minha filha tem dificuldades de andar sozinha nessas ruas esburacadas, com carros e motos por todos os lados. Até acompanhado está difícil”, revela. Sua filha pede algo bem simples: “queria ir à padaria sozinha, com o auxílio da minha bengala (Bastão de Hoover), mas tenho medo de ir e vir nas ruas da Maré”. A relação da Maré com as calçadas é muito complexa até para quem não tem deficiência. Calçada com pisos táteis é uma realidade ainda distante.

A acessibilidade deve chegar para todos. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é uma forma que o deficiente auditivo tem para se comunicar, portanto, é necessário que escolas, empresas e órgãos governamentais estejam cientes desta necessidade. Zilda Bezerra, moradora do Morro do Timbau, entende que ela precisa contribuir na inclusão. “Comecei a fazer o Curso de Libras com o desejo de me comunicar com todos, o que é uma troca. Imagina não ouvir e não falar e também não conseguir se comunicar, é triste”!

A Subsecretaria da Pessoa com Deficiência informa que seis equipamentos municipais fazem atendimentos para as pessoas com deficiência. O mais próximo é o Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência Mestre Candeia, que fica na Avenida Presidente Vargas, 1.997, no Centro. Mais informações: <http://prefeitura.rio/web/smpd/principal>

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