Construindo um festival para as mulheres do (meu) mundo

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Maria é repórter do jornal Maré de Notícias | Foto: Gabi Carrera

Maria é repórter do jornal Maré de Notícias | Foto: Gabi Carrera

Assim que soube que participaria para escrever de um dos grupos de reflexão que está reunindo mulheres para discutir temas a serem abordados no Festival Mulheres do Mundo (WOW), que acontecerá pela primeira vez na América Latina aqui no Rio, em novembro, fiquei pensando o que eu tinha no meu repertório de feminismo como mulher suburbana e periférica para oferecer e somar.

Algo não que eu tivesse lido, mas que eu praticasse na minha vida, ou que pelo menos tivesse visto alguma mulher que vivesse perto de mim fazer no dia a dia que pudesse representar aquele movimento nas áreas faveladas e suburbanas da cidade.

Nesse intervalo de tempo, encontrei uma amiga que trabalha em um salão de beleza perto da minha casa. Com expediente de cinco dias por semana, ela sustenta os três filhos e o marido, desempregado. O ensino médio que não completou não a impediu de ter casa própria e carro na garagem. Com menos de 25 anos! “Papai do céu abençoou”, como ela sempre diz, apertando a mão com os dedos e só o polegar para cima.

Entre uma gargalhada e outra de alguma bobeira que uma de nós contávamos, ficava martelando sobre como falar de feminismo com ela sem ser acadêmica. Sem falar em tom de aula, de transmissão de conhecimento erudito. Estava cara a cara com o assunto principal que levaria para a reunião. Estava cheia de perguntas sem respostas. Inundada de inquietações. Já sabia que nada ou muito pouco sabia sobre feminismo, mas me deparar sem repertório pra comentar isso em linguagem coloquial com a minha parceira me deu um tapa na cara.

No dia da reunião, um círculo lindo, só mulheres. Tanto só para participar quanto trabalhando. Na apresentação que passava o microfone de mão em mão, de depoimento em depoimento, percebi que o Festival Mulheres do Mundo está sendo construído para ser plural de verdade. Heterogêneo desde a idade até a classe social. Que incrível!

Na hora da divisão dos grupos, quatro ou cinco, formados com cerca de 15 mulheres cada, com uma “mentora” e uma relatora, expus a minha angústia de fazermos sempre eventos para convertidas. Gente que já sabia de feminismo, sobre equidade de direitos e etc. Disse que precisávamos chegar lá na minha amiga avessa à literatura e a “questões” freudianas, para falar que não é “obrigação” dela ter que limpar a casa mesmo com um companheiro que não trabalha, fazendo com que ela tenha jornada tripla. Os pares de olhos atentos, mesmo sem resposta, me deram a certeza de que só descobriremos isso juntas. Ansiosa para novembro.

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