As dores e alegrias de ser mulher na Maré

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Andreza Jorge e Kelly San ouviram histórias comoventes durante a pesquisa | Foto: Douglas Lopes

Andreza Jorge

Mestranda em Relações Étnico-Raciais, Coordenadora Pedagógica do Projeto da Casa das Mulheres e Coordenadora do Projeto Mulheres ao Vento

No segundo semestre de 2017, foi realizada uma pesquisa sobre violência contra a mulher no Conjunto de Favelas da Maré. Formávamos um grupo de cinco entrevistadoras, com profundas e distintas relações com o território:  duas moradoras, crias da Maré; uma moradora recém-chegada do Ceará e outras duas com anos de trabalho e trocas com o local.

O processo de entrevistar mulheres, a partir de uma amostragem específica para os parâmetros de coleta de dados, possibilitou a surpresa dos acasos. A cada rua, a cada endereço, novas possibilidades de encontros e histórias compartilhadas pela entrevistada, que nesse momento tornava-se nosso maior foco de atenção. O papel de entrevistadora, nesse instante, se fundia com o de ouvinte atenta e empática.

Bater em portas, convidar mulheres a responder um questionário que tinha como fim levantar/ouvir possíveis momentos de violência vividos foi, sem dúvida, uma tarefa muito difícil. E, ao passo que nos fortalecia como ouvintes e admiradoras, nos atingia como golpes certeiros, que nos comoviam e lembravam como é ser mulher em uma sociedade estruturalmente machista, racista e desigual.

Mulheres negras

Ao pensar nas favelas como espaço de ausências de direitos básicos, as demandas específicas referentes às mulheres tornam-se maiores, fazendo com que   tenham seus direitos violados e quase nenhuma chance de recorrer.

Além das desigualdades de gênero, é importante pontuar a relação de vulnerabilidade das mulheres negras em contraponto às mulheres não negras, pois ao pensar nas relações sociais de poder estabelecidas, as mulheres negras acabam por ocupar um posto abaixo, devido à junção dos preconceitos racial e de gênero. Com isso, temos um campo de pesquisa totalmente atrelado a questões e relações subjetivas que, como pesquisadoras e mulheres, não podíamos imaginar a proporção dos atravessamentos provocados.

Em campo

Muitos foram os encontros e, como parte da metodologia da pesquisa, nos reuníamos semanalmente com a equipe de campo da pesquisa, para trocar ideias sobre a experiência, sobre o que tinha nos tocados mais e nos fortalecer para que o trabalho fosse realizado de uma forma positiva e os resultados, os dados obtidos, pudessem ter retornos práticos e concretos.

 A partir da experiência, pudemos desfrutar de uma heterogeneidade que nos chamou a atenção durante toda a pesquisa. Os relatos de violências vividas nos aproximavam, tornavam visíveis nossas próprias experiências de violências sofridas e nos transformavam a todo instante em ouvinte, mais que isso, ouvintes confidentes, sendo, em muitas vezes, a primeira pessoa a quem aquela mulher relatou tais dores.

Muitas foram as vezes em que, ao finalizar uma entrevista-conversa, foi preciso parar um tempo antes de seguir para outra, seja para pensar em tudo que foi dito-ouvido, seja para sorrir e tomar para si aquele momento de inspiração, ou para sentar em uma calçada afastada e chorar um choro sentido e frustrado por não poder fazer mais nada por aquela mulher.

Os sentimentos eram muitos e o desafio era equilibrar a função de entrevistadora com o desejo de poder acabar com a violência contra mulher do mundo inteiro, de peito aberto, doía, e doía tanto, que quase sempre, depois de um dia de entrevistas a gente precisava de colo, precisava pôr pra fora todo o sentimento que inflava nossa coragem e enchia nossos olhos. Tivemos a honra de conhecer mulheres que nos ensinaram a erguer a cabeça, a não desistir, a rir, a servir um café, uma água, um suco, uma refeição. Uma das pesquisadoras até se emocionou ao receber de sua conterrânea uma quentinha em um dia de trabalho.Conhecemos mulheres que dividiram conosco momentos felizes de suas famílias, compartilharam histórias engraçadas, felizes, e abriram a porta e o peito para nos acolher com nosso questionário na mão, com nossos dias difíceis e sentimentos confusos.

Foi, sem dúvida, uma experiência incrível, capaz de transformar e aprimorar olhares, inspirar e dar muita força e energia para seguir acreditando que nada deve parecer impossível de mudar…

 

Tereza Onã, Alessandra Pinheiro e Juliana Alves participaram da pesquisa na Maré | Foto: Elisângela Leite

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