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Uma cidade chamada Maré

Levantamento inédito em periferias, o Censo Maré revela perfil da população do maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro. Com 140 mil habitantes, Maré é maior do que 96% dos municípios brasileiros e pode ser considerada uma cidade de médio porte. A tecnologia social do Censo já está sendo replicada em favelas de São Paulo. "Os dados nos ajudam a mapear necessidades específicas e a propor projetos e políticas públicas para melhorar a vida da população", explica Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e uma das coordenadoras do Censo.

Uma mulher nordestina com menos de 60 anos. Se a Maré fosse uma pessoa, provavelmente este seria o “rosto" do conjunto de 16 favelas que formam o nono bairro mais populoso da cidade e onde moram 9% da população residente em favelas no Rio de Janeiro. As mulheres são 51% dos habitantes da Maré sendo que, a cada quatro moradores, um é nascido no Nordeste do País.

Outro dado que chama a atenção é o número de crianças e jovens que moram no bairro Maré: 51,9% da população tem menos de 30 anos, sendo que 24,5% estão na faixa entre 0 e 14 anos. Por outro lado, a população com 60 anos ou mais é de apenas 7,4% dos habitantes - embora a tendência é que este percentual cresça nos próximos anos devido ao aumento da expectativa de vida e da queda da taxa de fertilidade da população brasileira.

Quanto à cor, 62,1% dos habitantes da Maré se declaram pretos ou pardos - resultados semelhantes do Censo do IBGE 2010. O critério utilizado foi a autodeclaração e demarca uma realidade típica da composição das favelas cariocas e do conjunto das periferias brasileiras.

Esses dados fazem parte do Censo Maré, levantamento inédito que mapeou o perfil da população do conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em coleta presencial de informações em visitas domiciliares - ou seja, os pesquisadores foram de casa em casa aplicar os questionários, seguindo a metodologia do IBGE.

O processo de consolidação dos dados foi longo - as pesquisas foram realizadas em 2012 e 2013 mas a origem do Censo é ainda mais remota: teve início em 2010, com a revisão da base cartográfica da Maré feita pela ONG Redes da Maré, responsável pelo Censo, em parceria com o Instituto Pereira Passos. Até então, a Maré sequer constava do mapa da cidade e a quase totalidade de suas ruas não eram oficiais.

“Muitas pessoas perguntam: por que fazer um censo específico para a Maré, já que existe a pesquisa populacional do IBGE? Nós respondemos que o Censo do IBGE, embora fundamental para a compreensão da população brasileira, não consegue abarcar todas as especificidades de um território com tantas complexidades como a Maré”, explica Dalcio Marinho, um dos coordenadores do Censo Maré.

Orgulho de morar na Maré

Embora o percentual de nordestinos seja bastante elevado na Maré (25,8% contra cerca de 9% da população metropolitana fluminense), os habitantes da região são essencialmente nascidos em uma das 16 favelas da Maré : 61,8% da população é formada por pessoas que ali nasceram.

Dentre os nordestinos, 70% são maiores de 30 anos - pessoas que provavelmente constituíram família e influenciam os descendentes com sua cultura, mesmo que os filhos tenham nascido na Maré. A Paraíba é o principal estado de origem dos nordestinos nas favelas da Maré e somam pouco mais de 10% da população, atrás apenas dos próprios cariocas (cerca de 70%).

Praticamente metade das mulheres da Maré com mais de 15 anos é responsável por domicílios, sendo que 30,3% são únicas ou principais responsáveis pelo sustento da casa - o restante (19,1%) exerce a responsabilidade de forma compartilhada em pé de igualdade com outra pessoa. O Censo do IBGE 2010 mostra que, na cidade como um todo, o número é menor: 38,1% das mulheres são responsáveis pelos domicílios (de forma individual ou compartilhada). O Censo apurou ainda que 62,5% da mulheres entre 25 e 29 anos que vivem na Maré são mães. Entre os homens este percentual é de 46,9%.

Dentre os grupos religiosos, predominam nas favelas da Maré os católicos (47,2%) e evangélicos (21,2%), sendo que apenas 0,7% se declararam espíritas e 0,5% seguidores de religiões de matriz africana - o que pode ser consequência do crescimento do preconceito e ataques a terreiros protagonizados nos últimos anos. Dentre os moradores da Maré, 29,1% declararam não ter nenhuma religião.

O morador nas favelas Maré é dono de seu próprio imóvel: 64,3% dos domicílios pertencem a seus moradores e a quase totalidade está quitada (99,4%), sendo que boa parte dos imóveis está ocupada há um longo tempo pela mesma família (atuais moradores, pais e/ou avós). Esta coabitação de diferentes gerações na mesma casa aliada ao aumento da locação na favela, fez com que a verticalização de imóveis crescesse de forma vertiginosa na Maré nas últimas duas décadas.

O Censo aborda ainda temas como questões ambientais, perfil escolar, saúde da família, pessoas com deficiência, óbitos, comunicação e acesso à tecnologia e torcidas de futebol - traçando um panorama aprofundado da população da Maré.

“Nosso principal objetivo com o Censo é ter um retrato, com a maior fidelidade possível, da realidade da favela: suas especificidades, necessidades, urgências. A partir daí podemos pensar em projetos, propor políticas públicas e cobrar soluções das autoridades”, avalia Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e uma das coordenadora do Censo Maré. “A partir dos dados levantados, detectamos por exemplo uma grande necessidade de ações voltadas para idosos e para a melhoria da qualidade do meio ambiente”, explica.

O Censo da Maré está sendo replicado, com adaptações para as especificidades locais, em três favelas de São Paulo, sob a coordenação do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, do qual Eliana Sousa Silva é professora visitante. São elas: Jardim São Remo (ao lado do campus Butantã), Jardim Keralux e Vila Guaraciaba (ao lado do campus zona Leste).

"Acreditamos que esta tecnologia social pode ser replicada nos mais diversos territórios populares e favelas do País. Produzir dados e conhecer a fundo as prioridades da população é um passo importante no reconhecimento da favela como a cidade” avalia. “Os moradores das favelas têm os mesmos direitos que qualquer cidadão”, conclui.

Para ter acesso ao estudo completo acesse aqui

 

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