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Artigo: Alfabetização como ação cultural para a liberdade

“Vi…la, Vi…la, Vila I…, é Vila Isabel, professora? É Vila Isabel? ” Diante de minha afirmativa, Seu Augusto, um pernambucano de 60 anos, ao terminar de ler o destino do ônibus, com lágrimas nos olhos, fitou os passageiros que aguardavam o transporte coletivo e, em meio a pulos, com o punho fechado erguido pra cima, começou a gritar: “Eu sei ler!!!!! Eu sei ler !!!!” Para algumas pessoas que presenciavam a manifestação de meu aluno, a felicidade expressada por ele podia parecer exagero. Porém, a possibilidade de saber o itinerário de um ônibus, sem precisar usar a desculpa do esquecimento dos óculos ou admitir o fato de não ser alfabetizado, era algo libertador para Seu Augusto, como tantas vezes ele falou em sala de aula. Envolvia não só a capacidade de ler e escrever, mas acima de tudo possibilitava sua autonomia e a ruptura com processos de interdição.

Passadas mais de duas décadas, eu ainda me emociono ao relatar o que vivi, naquele dia, na posição de professora alfabetizadora, que acompanhava a luta diária de operários jovens e adultos para garantir o direito à educação. Reflito que algumas situações vividas por pessoas não alfabetizadas, muitas vezes, marcadas pela dor, vergonha, angústia e humilhação, não são possíveis de serem sentidas pelas pessoas alfabetizadas. Como alguém que tem autonomia com a linguagem escrita, posso até dizer que imagino, entendo,  compartilho a angústia vivida por elas, mas só elas podem sentir na carne o que é, em determinados momentos, serem tratadas como incapazes, como aquelas que nada sabem. Sentem na pele o que é se colocadas numa posição subalterna, à margem, ainda que essa margem faça parte da sociedade.

Hoje, como coordenadora do Programa Integrado da UFRJ para Educação de Jovens e Adultos, ao atuar com a formação de novos alfabetizadores, observo meus alunos vivenciando emoções semelhantes as que eu vivi. Percebo a emoção, o encantamento dos alunos com a prática educativa e a ampliação do entendimento do que é o processo alfabetizador. A alfabetização é muito mais que o ato de ler e escrever. Em nossa sociedade, ela está intrinsecamente relacionada com o binômio saber-poder, pois mais que um meio de comunicação, a linguagem é também o meio de construirmos os significados daquilo que comunicamos. Nesse sentido, a alfabetização se constitui como uma “faca de dois gumes”, pois tanto pode ser brandida em favor da emancipação, do crescimento social e cultural, como para a perpetuação das relações de desigualdade e dominação.

De acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente, no Brasil, 8% da população acima de 15 anos de idade é de analfabetos absolutos. Porém, se considerarmos também os chamados analfabetos funcionais, ou seja, aquelas pessoas que não conseguem compreender o que leem ou que entendem alguma coisa, mas são incapazes de interpretar e relacionar informações, esse percentual é muito maior. Não raro ainda encontramos em sala de aula do Ensino Médio alunos que não conseguem explicar o que acabaram de ler. Esses dados refletem as desigualdades socioeconômicas históricas no País e vão interferir, significativamente, nas relações sociais e na organização de uma sociedade democrática.

Diante disso, a alfabetização não pode ser tratada meramente como uma habilidade técnica a ser adquirida, mas, sim, como fundamento necessário à ação cultural para a liberdade, aspecto essencial daquilo que significa ser um agente individual e socialmente constituído. A alfabetização é um ato de conhecimento, de criação e não de memorização mecânica. (Freire, 1994). Não podemos permitir que nossa população tenha de aguardar mais de seis décadas de vida para, tal como Seu Augusto,  liberar da garganta o grito libertador: “Eu sei ler !!!!! Eu sei ler!!!!” Grito este, que mais  que anunciar uma novidade, anuncia a ruptura com a interdição e, ainda, a possibilidade de emancipação social e cultural.