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Artigo: O trabalho como força da realização humana

Eduardo Alves

O mundo, que predomina para os todos que necessitam sobreviver com a venda da sua força de trabalho e seguem em busca de um salário que possa garantir a vida para mais um dia, é um obstáculo para o desenvolvimento e ampliação humana. É nesse trabalho (a ação das pessoas no mundo do mercado para garantir o salário da subsistência) que existe no mundo no qual vivemos, onde as pessoas se tornam coisas, escravizadas, aprisionadas em não se realizar, em apenas sobreviver para mais um dia.  Todos os dias se tornam iguais: acordar, cuidar de filhas e filhos, enfrentar conduções lotadas, viver as mais cruéis violências, garantir a duros custos suas moradias e sentir, com muita dor, o corpo acabar, sem realizações, com mulheres e homens cada vez mais distantes da felicidade. E a maioria das pessoas, convencidas de que esse é o único caminho, segue sobrevivendo, a trancos e barrancos, um dia após o outro. É preciso mudar essa história.

As pessoas deveriam viver o trabalho em suas mais profundas realizações de criatividade. Mas, no mundo que existe, tendem a ficar esmagadas pela força da exploração, que coloca o lucro acima da vida. A relação das pessoas com o trabalho acaba sendo a produção e a garantia da circulação de mercadorias, sem compreender, entre quem produz, quem são os criadores. E, na maioria das vezes, quem garante a circulação das mercadorias no grande mercado que toma o mundo não possui sequer o direito de utilização de tais coisas. As pessoas se coisificam progressivamente nesse movimento. É possível construir um ambiente diferente, no qual o trabalho se apresenta como criatividade, invenção, produção das mudanças e elemento para a construção de transformações que alterem a vida e a sociedade. Por meio do trabalho, as pessoas se relacionam com outras e com a natureza e isso só deveria existir para ampliar a potência humana e fortalecer a ação de transformação do mundo atual.  Ou seja, o trabalho precisa existir para produzir uma vida melhor na sociedade e no território e, aí, sim, haverá o trabalho de verdade, aquele que liberta, cria artes e inventa alternativas criativas e cria insumos para melhorar a vida.

Vive-se em um mundo no qual predomina o ponto assinado, o cartão batido, o tempo contabilizado e o desejo inalcançável para que a hora do término do trabalho chegue. Aquele momento em que se espera viver pingos de felicidade e se possa namorar, estudar, ir ao teatro, dançar, cantar, produzir artes, assistir um filme, ficar com a família, e buscar ações que não são vistas como trabalho. Romper com a exploração econômica é, portanto, elemento fundamental e decisivo para que o trabalho alcance sua dimensão mais plena, o de realização das satisfações materiais e espirituais da humanidade.

Apostar em ambientes coletivos onde possamos construir espaços voltados para fortalecer e identificar caminhos de ampliação do papel de cada pessoa, como sujeito da sua própria vida, é uma ação fundamental. Trata-se de criar e ampliar a humanidade em todos os seus aspectos e em todas as suas dimensões. Para isso, é importante conquistar direitos em todos os espaços da cidade.

Precisa-se unificar ações coletivas nos vários ambientes da vida. É necessário conquistar, no território, condições dignas de subsistência, como saúde, educação, transporte, equipamentos de arte, espaços de lazer, formas de encontro coletivo, onde o trabalho siga se realizando como força humana, sem o peso de ser algo que escraviza.

Nesse sentido, fortalecer a periferia, que já realiza, em vários momentos da sua vida, ações que se contrapõem à sociedade do mercado e aponta, para um outro mundo, é fundamental. Vamos, portanto, fazer tremer os vergalhões e os concretos, criando várias flores que nascem do asfalto, superando limites de marcas para uma escala cada vez mais ampla da dignidade humana. Afetividade, colaboração, solidariedade, que nascem e vivem nesse plano são ações para o hoje, mudando o mundo atual e criando uma cidade de direitos.