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“Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?“

Quem vai responder a essa pergunta que desde ontem à noite povoa nossos sonhos e pesadelos?  Sim, vivemos um pesadelo na cidade do Rio de janeiro, antes maravilhosa e hoje capital da Intervenção Federal. As investigações estão em curso mas a incômoda certeza de que Marielle foi executada não nos abandona e certamente vai nos acompanhar pelo resto das nossas vidas; seja qual for a conclusão do inquérito policial. É um sinal poderoso. Um aviso. Negros, pobres, de periferia, “a justiça é para todos”.  A Maré perdeu uma filha, o conjunto sangra, com suas 16 favelas e seus 147 mil moradores. Marielle que, nem faz tanto tempo assim, brincava pelas ruas e vielas, exibia o seu sorriso confiante, seus traços de princesa nagô; e fazia a gente pensar que tudo é possível e que essa cidade, esse estado, esse país tem jeito. E que a Justiça, um dia, ainda que distante, ia estender sobre nós o seu manto, que a todos iguala.  Ledo engano.  Mas vamos enxugar as lágrimas e estancar o sangue.   Manter Marielle e seus sonhos vivos é prosseguir na luta. Não queremos heróis, queremos direitos, cidadania, democracia. E esses bens inalienáveis do ser humano, para chegar aos becos pelos quais trafegamos hoje entristecidos, abalados; terão que ser conquistados, arrancados com garra, suor e lágrimas. Não vamos nos deixar abater. Marielle merece viver como um símbolo que, nos seus poucos 38 anos, fez sua vida a vida valer à pena representando 46 mil eleitores, 140 mil moradores da Maré, milhares de jovens negros mortos, mulheres violentadas, trabalhadores sem direitos, homens e mulheres agredidos por suas escolhas. E pra nós, que tivemos o privilégio de conviver com essa mulher inesquecível.