Moradores do Vidigal em reunião para discutir problemas decorrentes da alta dos preços.  Foto: Aramis Assis

Moradores do Vidigal em reunião para discutir problemas decorrentes da alta dos preços.
Foto: Aramis Assis

Texto e fotos: Aramis Assis

As favelas do Rio de Janeiro, onde vivem 23% da população carioca, estão passando por um rápido processo de visibilidade que atrai novos moradores, turistas e investidores. Em geral, estão interessados no clima hospitaleiro, nos movimentos artísticos e culturais, nos preços mais acessíveis que outras partes da cidade, na localização muitas vezes próxima às áreas centrais já saturadas de imóveis e ainda nas peculiaridades desses espaços que possuem identidade própria.

O problema é que essa movimentação teve como consequência o aumento absurdo dos alugueis, fruto da supervalorização imobiliária dessas regiões, dificultando a vida dos moradores que não possuem condições financeiras para se adequar às novas exigências do chamado mercado. Esse processo é chamado de gentrificação, o mesmo que “remoção branca”.

Esse fenômeno também está associado à realização dos megaeventos de caráter internacional que a cidade irá sediar, a Copa e as Olimpíadas, e à instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em diversas favelas do Rio.

A urbanista e diretora executiva da Comunidades Catalisadoras, Theresa Williamson, apresentou seus estudos sobre regulamentação fundiária e planejamento urbano nas favelas do Rio, no ciclo de debates “Fala Vidigal”, que acontece uma vez por mês nesta comunidade da zona sul para discutir os problemas da alta de preço dos imóveis.

O estudo explica que com a chegada da UPP já ocorre aumento no preço dos imóveis instantaneamente, afetando os alugueis. Os serviços públicos como luz e água começam a ser cobrados a um alto custo e muitos moradores acabam sendo obrigados a sair de suas próprias residências; ou seja, não há remoção forçada, mas a chamada “remoção branca”.

Theresa conta que a gentrificação é comum nas grandes cidades do mundo. Porém, as que foram bem sucedidas no enfrentamento do problema iniciaram uma regulação no setor imobiliário para dar acesso à moradia para a classe econômica baixa. É o caso de Cingapura, com 90% do seu setor habitacional público, contemplando toda a classe média; de Londres, onde 24% da população recebe aluguel social, e de Santiago do Chile, onde 20% da população recebe casas do governo.

A gentrificação, processo quase que inevitável nas grandes cidades, modifica as favelas em áreas mais luxuosas e caras. Ainda segundo o estudo, os estrangeiros e jovens, geralmente de outras regiões do Brasil, que chegam nesses espaços, não têm a intenção de explorá-los. O problema é que, mesmo assim, o lugar passa a vivenciar uma transformação.

Theresa explica que, além de lutar contra a “remoção branca”, deve-se também estar atento para evitar que a cultura vinda de fora não se sobreponha à da favela. “É necessário pensar a urbanização  de outra forma, que priorize os direitos e necessidades dos moradores que construíram a própria comunidade”, frisa.

Um recorte da gentrificação na favela do Vidigal

Localizada no Morro Dois Irmãos, entre os bairros nobres do Leblon e São Conrado, a favela do Vidigal sofreu, após os anos 2000, grande urbanização e valorização; e com a entrada da UPP, em janeiro de 2012, passou por um rápido processo de visibilidade, principalmente pela vista privilegiada para o mar.

André Bacana, diretor cultural e social da Associação dos Moradores da Vila do Vidigal (AMVV), comenta a atual “remoção branca” na favela. “O Vidigal está localizado entre duas áreas ricas que não possuem mais imóveis fáceis para comprar. Então as pessoas que não tem preconceito, a maioria profissionais liberais, estão descobrindo o Vidigal como um lugar para bons negócios. Um imóvel que custava R$ 30 mil por volta de 2004/2005, hoje não vale menos que R$ 350 mil”, afirma.

André afirma que orienta os antigos moradores a não venderem barato seus imóveis nem se mudarem para muito longe, pois isso provoca uma mudança de hábitos muito grande para quem está acostumado com a comunidade.

Silva Costa, corretor de imóveis no Vidigal, ratifica a fala de André ao afirmar que a maioria dos moradores se arrepende quando vende seu imóvel e se muda da favela. Segundo Silva, a supervalorização imobiliária também faz com o que o morador aprenda a valorizar mais seu trabalho e se beneficiar desse fenômeno.

Com esse crescimento populacional e de procura imobiliária, o Vidigal sofre com a precariedade na infraestrutura, no saneamento básico e na coleta de lixo. A Associação dos Moradores já está em reunião com a prefeitura reivindicando investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, e lutando por um planejamento urbano, já que as ruas estreitas demais e o excesso de pessoas tornam a acessibilidade do transporte péssima.

O artista plástico Vik Muniz e o empresário Rene Abi Jaoudi já compraram casa no morro. Diversos outros produtores culturais, artistas e arquitetos se tornaram adeptos do lugar, como o músico pernambucano Otto. Há ainda aqueles que nasceram no Vidigal e não pretendem sair, como a atriz Roberta Rodrigues.

O austríaco Andreas Wielend mora no Vidigal desde 2009 e é dono do badalado Hostel Alto Vidigal, localizado no Arvrão, área com uma das vistas mais belas da favela e local para bons negócios. Nessa região vendem-se muito imóveis para moradia e devido à grande procura os moradores acabam fazendo negócio próprio. Questionado sobre a supervalorização, Andreas afirma que “valorizou muito sim, mas isso pode ser apenas especulação e depois de um tempo os valores acabam caindo novamente. O crescimento muito rápido normalmente não é saudável e o povo é que sofre com isso”, reconhece ele.

(A reportagem foi publicada originalmente na ed. 53, de maio de 2014, do Maré de Notícias. Permitida a reprodução, desde que citada a fonte).