Por Rosilene Miliotti

A cerveja artesanal se chama Plurais. O nome foi escolhido durante um sarau após uma acirrada votação, no Morro do Timbau, em evento realizado pela Roça Rio, loja de produtos naturais que desenvolveu a cerveja.

 A ideia surgiu do Encontro de Economias Comunitárias, onde vários grupos que trabalham em autogestão sugeriram a criação de um núcleo de produção de cerveja em favelas. A iniciativa é do Fórum Popular de Apoio Mútuo, e o mestre cervejeiro André Nader está ensinando a técnica aos grupos. Além da Maré, participam pessoas das favelas da Babilônia, Acari, Alemão e Morro dos Macacos.

Geandra Nobre, colaboradora da Roça Rio, explica que a base de produção, que ainda será criada, consiste em uma cozinha onde serão montados três fogões. Cada panela no tamanho de 120 litros poderá produzir em torno de 90 litros por braçagem (cozimento da cerveja, que leva oito horas). A cerveja fica pronta em três semanas, mas é consumida em minutos. Geandra ressalta que a produção na Maré só é possível porque um amigo emprestou o equipamento.

Para a professora Gilda Moreira, moradora de Santa Teresa, a cerveja está aprovada. “Nessa vida louca que a gente vive, os alimentos estão cheios de agrotóxicos, transgênicos e conservantes e ter uma cerveja livre dessas coisas é uma iniciativa maravilhosa”, comemora ela, que esteve na Roça na noite de lançamento (27/09).

Já a professora Elaine Alves, moradora do Cajueiro, conta que esteve na Alemanha há pouco tempo e que as cervejas de lá são muito gostosas. “A cerveja produzida na Maré não deixa nada a desejar”, afirma.

Geandra compara a cerveja industrial a uma feijoada enlatada, sem gosto. “A cerveja, embora alcoólica, é um alimento que pode ser produzido em casa. Acabamos de fazer uma no estilo weizen, uma cerveja de trigo que leva casca de laranja. Estamos aprendendo, mas sempre experimentando novos sabores. Certamente teremos novidades”.

Comércio justo

 Eduardo Tomazine, também colaborador da Roça, diz que todos ganham a mesma coisa com o lucro da venda da cerveja. Segundo ele, a preocupação é vender a um preço acessível para a população local consumir e não apenas para o gringo que vem provar. Uma garrafa de 600ml na Roça custa R$ 8. Em outros lugares, uma cerveja puro malte, de 300ml sai, em média, por R$ 16.

“No comércio justo, outras relações estão sendo feitas, tanto entre quem produz, que não tem patrão e ninguém ganha mais do que ninguém, quanto para quem consome, porque consome junto com a cerveja os valores da autogestão e da igualdade. Sem contar que fazemos um controle de qualidade rigoroso, provamos todas as cervejas que fazemos. Além disso, uma característica da cerveja artesanal é que cada braçagem é uma cerveja. Nenhuma vai ter o gosto da outra”, explica ele.

A Roça fica na rua dos Caetés, nº 82, Morro do Timbau Aberta às segundas, quintas e sextas a partir das 16h.

 

No dia 9 de outubro, Naldinho Lourenço, fotógrafo do Imagens do Povo e morador da Maré, foi abordado arbitrariamente, revistado e obrigado a apagar todas as fotos que havia feito de uma operação policial com seis blindados na Vila do João. Naldinho foi abordado por um militar do Exército e também ouviu de um delegado da Polícia Federal que na Maré não se pode fotografar.

Jornalistas e midiativistas, com apoio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, irão juntar casos de violação ocorridos na Maré e em outras favelas, para elaboração de relatório a ser entregue para as autoridades responsáveis pela ocupação e pela segurança do Estado. O foco da luta é o direito de comunicadores populares atuarem nas comunidades.

 

Devido a uma reclamação recebida sobre falta de pediatras na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Maré, na Vila do João, gostaríamos de divulgar o site onde podemos ter acesso à escala dos médicos. Na aba Escala em Setores de Emergência , a informação vem por nome do médico, especialidade e horário de trabalho.

A UPA Maré tem pediatra, a equipe do jornal conferiu a informação, mas podemos ficar de olho nas faltas.

 

Por Rosilene Miliotti

Abayomy, palavra que causa certa estranheza na primeira vez que ouvimos, significa “encontro feliz” em yorubá (língua africana), e traduz muito bem tanto o clima da banda quanto do público durante os quatros shows realizados na Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, nas noites de sextas-feiras de setembro. O evento do grupo Abayomy Afrobeat Orquestra veio e trouxe, pela primeira vez para nossa favela, Jards Macalé, Otto, Felipe Cordeiro e BNegão. Para quem ainda não conhece, a orquestra mistura afrobeat com tambores e cânticos do candomblé e da umbanda, num resultado bem dançante.

Geisa Lino, produtora da Lona, disse que Otto está apaixonado pela Maré. “Ele quer voltar para fazer outro show e gravar um clipe com os meninos do passinho”, revela. Para ela, essa é uma forma de possibilitar o encontro. “A Maré tem muita gente talentosa, o que falta é fazer com que essas pessoas encontrem outras que possam dar possibilidades. Encontros que muitas vezes seriam improváveis de acontecer se esses talentos não circulassem. O Favela Rock é um exemplo disso. Bandas da Maré tocando com bandas famosas”, explica.

Thaiana Halfed, produtora da Abayomy e do evento, conta que este foi um projeto escrito para a Lona da Maré. Além dos shows, foram realizadas oficinas de construção de instrumentos, música, capoeira e dança. “Foi tudo maravilhoso e a gente tem que voltar. Estamos finalizando o projeto hoje (dia 26/09), mas a relação da banda com esse espaço continua. As crianças que participaram das oficinas têm um brilho lindo nos olhos. Sem falar da troca, as crianças também nos ensinaram muito a partir da vivencia delas”, afirma.

A produtora ressalta que o evento tem como proposta uma ocupação artística. Ela diz que prefere ver a Maré pela abundância do que pela ausência. “Aqui tem muita potência, muita coisa boa acontecendo ao mesmo tempo, e a comida é maravilhosa. A média do público por show foi de 400 pessoas. Muitas pessoas da zona sul (que vieram para a Lona em uma van que saía da Lapa) e uma galera da zona norte e da Maré, todo mundo junto e misturado curtindo”.

Com a palavra, Bnegão

O carioca BNegão, de Santa Teresa, encerrou o evento. Essa foi a primeira vez de BNegão na Maré e, apesar de a grande imprensa sempre dar destaque a notícias sobre violência quando fala sobre a comunidade, ele afirma filtrar todas as informações e prefere tirar suas conclusões quando chega ao lugar.

“Eu não procuro criar expectativa e na minha vida inteira sempre andei de uma forma a não ter divisão de classe. Para mim é o ser humano e acabou. Um dia eu toco em um lugar que me paga muito bem e no dia seguinte em outro lugar que pague menos. Faço música pela mensagem que posso transmitir e a mensagem é de sobrevivência, de não desistência, de fazer as coisas que você precisa fazer e que não vai ser fácil para ninguém. De buscar alternativas de vivência. Sobreviver é o primeiro passo e viver é o ideal”, discorre ele.

O cantor brinca e diz que um amigo sempre fala que artista é o cara que consegue pagar suas contas em dia. “Eu sou da ‘facção’ da vida simples. Eu entendo essa coisa da ostentação por causa da propaganda que é feita, mas pouca coisa me resolve. Se eu tiver com minhas contas pagas, o que é difícil, eu já fico de boa”, diverte-se ele, que sugere que as pessoas coloquem a TV no mudo quando entra o comercial. Essa é uma atitude que ele aplicou em casa e que seus filhos repetem.

Sobre os shows na Maré, BNegão diz ser bom que artistas comecem a circular pelas periferias, e mais importante que tenham o espaço adequado para isso. “O que sempre juntou a gente (Abayomy e eu) foi a música e o ativismo. A gente está a fim de fazer esse show porque a gente acha importante estar aqui, não só para a comunidade, mas para gente e toda a cena carioca. Quanto mais descentralizar, melhor. Me falaram que aqui tem uma cena de rock muito legal, eu acho sensacional. Também fico feliz que tenha um veículo de comunicação, um espaço pra tocar, uma rádio comunitária aqui. Três veículos fazem uma cena e vocês têm isso. No bairro onde eu moro não acontece, por exemplo”.

Para BNegão, a cultura salva e já o salvou algumas vezes. “Eu faço música pra dividir e trocar ideia”. O cantor chama atenção para a música Alteração e diz que tem tudo a ver com a realidade das periferias e, principalmente, da Maré. Se liga na letra!

Alteração – BNegão e Os Seletores de Frequência
A música gerada pra gerar alteração, positiva
Equipe de construção na ativa, na estiva
De espírito pra espírito, de alma pra alma
Sempre convicto na tentativa de manter a calma
Mesmo ‘tando’ no olho do furacão
Mesmo quando o coração aperta
Mesmo com o planeta em estado de alerta
Seguindo, no desafio de manter a mente quieta
A espinha ereta e a cabeça no lugar
Na medida do possível, na sintonia certa, eu falei!
Entre caos e o caô, entre a inércia e o terror
Entre comandos; políticos, polícias e milícias
Num campo aberto ou num mar de concreto
A hipnose chega perto do grau 9 numa escala 10
O mundo inteiro aos seus pés.
A história até o final ainda contém várias surpresas
Para o bem e para o mal, que tal?
Uma por uma as verdades vêm à tona,
Olha que beleza, tijolo por tijolo, máscara por máscara.
Do estilingue vai à pedra, da banana vai à casca.