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17/05/2011 | Notícias

Mercado imobiliário na Maré

por Hélio Euclides

MORADORES SENTEM NO BOLSO O PREÇO DE SE VIVER NA COMUNIDADE

Placa para que os moradores colem seus anuncios de compra, venda e locação na comunidade Vila do João. Foto: Elisângela Leite

Em um território que cresce sem parar para cima e para os lados, as pessoas acabam pagando, para morar na Maré, o que pagariam por um pequeno apartamento na zona Norte da cidade. Com tanta procura para tão pouca oferta de espaço, os preços sobem de forma desenfreada – o que acaba virando vantagem para alguns.

A compra de imóveis com a finalidade de vendê-los ou alugá-los na expectativa de que seu valor de mercado aumente, é um prática rotineira e que funciona bem nas favelas.

Se uma pessoa compra vários imóveis em uma mesma região, isto reduz a oferta de casas e pontos comerciais no local. Caso existam várias pessoas buscando imóveis nesta região, o resultado é o aumento de preços. É a famosa oferta da lei e da procura.

“Isso acontece com moradores que recebem alguma indenização trabalhista. Um cliente nosso comprou seis quitinetes por 142 mil reais, como forma de investimento para o seu dinheiro. Por outro lado, ficam menos imóveis para a comunidade”, explica o dono da imobiliária Robvendas, Robson da Silva. Já a representante da Fagundes Imóvel, Patrícia Athaide, acha que a ausência de imóveis ocorre por causa da procura de investidores externos. “Há clientes de fora, que enxergam facilidades na comunidade, como não pagar água ou IPTU”, ilustra.

A cotação das casas com laje é maior do que as acabadas, pois podem crescer junto com as necessidades da família. Hoje as casas nas favelas valem muito porque oferecem a liberdade do morador fazer um puxadinho para vender ou alugar. “A maioria recebeu a casa com um andar, de telha e com quintal. Com as obras está difícil achar casa com laje, é coisa rara”, detalha a dona da Imobiliária Irmãs Guimel, Ana Paula. Outro fato que chama atenção é que muitos moradores vendem suas casas e se mudam para outros locais na mesma comunidade. “O morador muitas vezes vende sua casa para trocar de quadra e fica na própria comunidade”, esclarece a dona da Queiroz Imobiliária, Sônia Maria Queiroz.

“Não acho casa boa para comprar por menos de 40 mil reais, é um absurdo!”, comenta a moradora da Vila do João, Carmen Dolores. Esta realidade vem acontecendo em toda a Maré, como no Conjunto Bento Ribeiro Dantas, onde Beatriz Júlia da Silva colocou sua casa a venda por 60 mil reais. “Aqui não aparece casa para vender e, quando surge, é comercializada no outro dia”, destaca a Presidente da Associação de Moradores do Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Clemilda Vicente de Carvalho. “O preço aqui é de 40 mil em diante. Já o aluguel é de 400 reais a casa e de 250 reais a quitinete”, diz.

Demanda por imóveis cresce na Maré

Anúncio de venda de casa na comunidade Bento Ribeiro Dantas. Foto: Elisângela Leite

“Esse ano o aumento do aluguel foi significativo e o argumento do proprietário é que cresceu a demanda por imóveis. Sem muita alternativa, aceitei porque vi que outros inquilinos estão pagando valor maior”, afirma o professor da rede municipal de ensino, Sinésio Jefferson, que mora no Conjunto Esperança há quatro anos.

“Não está tendo mais espaço para tanta gente vindo de fora da Maré. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Manguinhos trouxe muitos moradores, que receberam indenização e vieram para Nova Holanda, Rubens Vaz e Parque União. Jovens que querem casar e comprar imóveis, já não encontram mais lugar”, diz Robson.

Moradores arriscam os motivos da especulação imobiliária: “O preço está alto por causa do material de construção e mão de obra. E aqui é perto do Centro da cidade, com muita condução, o comércio que fica aberto até de madrugada”, destaca a moradora e cliente da Robvendas, Gisele Arruda. “E a Nova Holanda ainda é próxima de tudo, economizamos com ônibus, e dar para ir a pé para Bonsucesso. Aqui é igual condomínio fechado: tem tudo”, avalia.

A moradora da Vila do Pinheiro, Maria Lúcia Sousa pretende vender uma casa de três andares por 90 mil reais, com intermédio da Imobiliária Irmãs Guimel. “Acho bom o preço, não abaixo. Só vou sair daqui porque vou morar com meu neto, em Sepetiba, já tenho 40 anos de Maré. A comunidade é valorizada, tem condução para todo lado”, relata.

O preço de uma casa na Rua Teixeira Ribeiro varia de 65 a 70 mil reais. “O valor chega a isto porque a comunidade é rica de comércio”, exalta Robson. Para Sônia os imóveis precisam estar preparados para a venda. “Faltam casas em boas condições. Acho que o preço está alto. No Morro do Timbau tem casa por 130 mil reais”, diz.

Na localidade conhecida como Sem-Terra, podem ser encontradas casas com quatro quartos e suítes, com aluguel de 600 reais. “O Parque União tem residências que chegam a custar 120 mil reais. Lá não tem becos, tipo labirintos, o que conta muito. Aqui a venda não quer dizer que a pessoa saiu da comunidade, só há uma troca de rua”, confessou a representante da Fagundes Imóvel, Verônica Dionísio.

“Sinto que as pessoas têm perdido um pouco da noção, com valores altos. Na Vila do Pinheiro temos um imóvel de quatro andares por 90 mil reais, já os aluguéis chegam a 180 reais a quitinete e 350 reais a casa. Na Vila do João há casas de 100 mil reais, pela proximidade com a avenida Brasil”, admite Ana Paula.

Para o professor Sinésio, o temor maior é que, em função da Copa e dos Jogos Olímpicos, ocorra uma pressão pela mudança completa da região. “Durante muito tempo fui favorável à concessão dos títulos de propriedade aos moradores da Maré, um direito que deve ser garantido. Hoje, avalio que podemos com isso dar margem a uma remoção legal de toda a Maré. Seria muito fácil uma grande imobiliária, se bobear com financiamento público, comprar várias propriedades e criar posteriormente condomínios de classe média”, finaliza.

Contatos:

Fagundes Imóveis – Rua Roberto da Silveira, nº 24 – Parque União – 2590-8193. Rua Teixeira Ribeiro, Shoppinho – 3977-5870

Robvendas – Rua Principal, nº 123 loja – Nova Holanda – 3105-5052.

Queiroz Imobiliária – Avenida Canal, nº 85 – Vila dos Pinheiros – 3104-8750.

Irmãs Guimel – Via B/1 – Vila do Pinheiro – 2520-1971.